Sonhei com a gruta.


Sonhei que mais uma vez eu ia na gruta. Íamos eu, meu pai, minha irmã, meus primos. Como sempre.  Com nossos colchões de ar, boias de pneu e pedaços de madeira flutuante. 

Mas dessa vez era diferente. Dessa vez ia rolar uma câmera que filmava em baixo d’água.  Saímos do churrasco, pulando nas boias, rindo. Não parecia sonho. Estava tão igual. 

A correnteza nos levou para o mar. E eu estava muito empolgada. Segurando a bolsa da câmera como se fosse a minha vida. Eu ia poder mostrar para o mundo. Para o mundo e para a minha mãe - que tem medo de água - como era dentro da gruta. 

Chegamos. Olhei pra minha irmã e mentalmente disse: Mergulha. Conta um, dois, três e abre o olho. Você vai ver a claridade.  Disse isso só olhando pra ela e balançando a cabeça. Ela entendeu. Tanto porque já sabia como fazer, quanto por conhecer minhas expressões faciais como ninguém. 

Fiz o ritual. Amarrei a boia da pedra, fui nadando até a pedra maior, mergulhei. 1,2,3. Abre o olho. Lá estava a luz amarelo-dourada. Mais duas braçadas e levantei. A gruta enorme, fantástica. Com rachaduras na parte superior, que faziam o sol entrar pelas festas. Parecia Valfenda. Parecia filme. As pedras de dentro formando pequenas cascatas, a luz entrando, o cheiro de mar. Todo mundo entrou. 

“Pega a câmera, a câmera!” Peguei. Liguei. Tava escuro. Eu podia imaginar que estaria.  Tinha preso no biquíni, uma lanterna de bolso. Lembrei-me disso, e o problema estaria solucionado.  Mas a lanterna ligou. 

Sim, “mas”, e não “e”. Porque a câmera podia ser molhada, mas a lanterna não. A lanterna iluminou a gruta e a racionalidade me meu uma rasteira. Era um sonho. Eu não estava na gruta. Não era como das outras vezes.
Acordei chorando. Chorando muito. Aquilo foi um sonho. A gruta também. A gruta não existia. Teria eu sonhado com ela só hoje, e pensando, no ingênuo sonho, que sempre sonhei com ela? 

Teria eu, acreditado a vida inteira na existência de  lugares, situações ou pessoas tão fictícias como a gruta?

Poderia eu, durante todo esse tempo, ter sonhado com a vida, e vivido num sonho? 


Voltei a dormir. 

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