Ana, e o pequeno furo de sua cabeça.


(repostando - uma vez que o portal iuuk se foi...)



Ana nasceu com um problema: Um furo na cabeça, por onde não entrava nada, a não ser os mais variados tipos de ideias.
Ana nasceu com uma deficiência muito pequena. Um furinho, com diâmetro de uma agulha de bordado, bem em cima da cabeça.  Por esse furo, não saia nada. Também não entrava nada, nada a não ser ideias.


As ideias entravam muito mais facilmente do que acontecia com todas as pessoas. Não existia filtro, o conflito se dava internamente. A única pergunta era “Por quê?”. Depois de uma luta que parecia durar séculos, a ideia ia embora, ou ficava pra sempre.

Foi por isso que Ana começou a falar tão cedo. Alguém perguntou para sua mãe “Quantos meses ela tem? Seis? Ah, que gracinha! Você vai ver como passa rápido. Daqui a pouco ‘ta  falando já!” Falar lhe pareceu uma boa ideia.

Observando os seres a sua volta, percebeu que os que falavam tinham grandes vantagens sobre os que não falavam. Cansou de ver o cachorro jogar o brinquedo em baixo do sofá e ficar latindo, e depois ganhar um carinho na cabeça. O cachorro ficava desolado, e parava de latir. Sua mãe voltava para o que estava fazendo.

Ouviu quando tinha dois anos, de uma tia sua, que a babá chegava sempre atrasada por que “tinha que ser preta”. A ideia entrou na sua cabeça e ficou lá. Observou, e observou. A babá chegava na hora muitas vezes. E seu pai às vezes chegava atrasado, e não era preto... Perguntou para a sua mãe se ela achava que a culpa era da cor da babá. “Claro que não, filha. A cor da pele não influencia em nada... Só deixa o mundo mais colorido”.” A babá chega atrasada às vezes, porque o ônibus que ela pega demora muito a passar.”

É claro que essa ideia entrou. E o ônibus ser o motivo do atraso era um fato muito mais simples de explicar do que tentar relacionar a cor a tal evento. Então a outra ideia foi expulsa muito rapidamente.

E foi assim com tudo. O que fazia mais sentido, ela acatava. Se você for legal com as pessoas, elas vão ser legais com você. Quando mais dedicado você for, mais fácil será entrar em uma boa faculdade, conseguir um bom emprego. Era muito simples, porque era muito obvio. Uma vez que a sua cabeça é aberta, ela nunca mais pode ser fechada.
Uma ideia maior do que todas entrou na cabeça de Ana. “O mundo não faz sentido, porque estamos sempre vivendo para o passado.” Essa ideia era tão grande, e tão forte, que passou a ser não só uma ideia, mas um filtro.  O tempo mudava, mas as pessoas custavam a mudar com ele. A época que passou era sempre uma época melhor do que a que estava por vir.


Toda tentativa de mudança era sofrida. Por mais que algo estivesse muito ruim, as pessoas se apegavam ao conceito de tal forma, que preferiam ferir as mãos do que soltar. As ideias passavam direto pelas pessoas. Ana não concebia tal comportamento. Sua cabeça era aberta demais.


Um dia, já sem sabe o que fazer, voltando da faculdade, após ouvir grandes absurdos na aula, encontrou um velho maltrapilho que fez “psiu” para ela.  A maioria das pessoas não iria olhar, mas Ana parou.


“Sabe, eu fui um gênio da lâmpada certa vez...” O velho disse depois que ela respondeu as horas, o dia do mês e o ano em que estavam.  “E por que você não é mais?”  Ela perguntou intrigada. “A quantidade de coisas absurdas que as pessoas pediam... Sempre a mesma coisa. Dinheiro. Ser melhor que os outros. Viver muito. E pra que? Nada. Aposentei.”

Ana ficou muito triste. Como nunca havia ficado na vida. Saber que existia um gênio, que as pessoas tiveram a chance e o mundo ainda era o que era, a deprimiu. O velho pareceu notar. E sorriu. “Sabe, eu devo ter um pedido. Unzinho, sobrando. Você quer?”

E se um pedacinho de matéria do tamanho da cabeça de um alfinete criou o mundo, segundo uma certa teoria ai, a falta de matéria menor ainda, na cabeça de cada um dos seres que habitavam a terra, criou outro.

Uma vez que a sua cabeça é aberta, ela nunca mais pode ser fechada.

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