Por culpa do Maneco, ele não parava de sonhar


À noite sonhei contigo,
E o sonho cruel e maldito
Que me deu tanta ventura.
Uma estrelinha que vaga
Em céu de inverno e se apaga
Faz a noite mais escura!
                                  Álvares de Azevedo.




Em tal ponto havia chegado aquele moço, que não mais sabia se estava com alegria ou desgosto.  A diferença entre sonho e realidade era tão difusa, que ele não fazia esforço. Assim como, um certo autor, ultra-romântico, parte de tudo, não era real.
Ao perceber que podia ter as duas coisas, ele apenas largou de mão o trabalho que teria.
Era principalmente difícil porque a moça da realidade e a moça do sonho, eram a mesma pessoa. Os lugares da realidade e os lugares do sonho, eram os mesmos. A moça era encantadora, nos dois. Os dois viviam sempre perto, sempre próximos, nos dois.  A moça sabia da sua afeição em ambos. Mas ela só retribuía, no sonho.
Ainda era ótimo sua companhia fora dele, e foi por causa da realidade, que ele começou a vê-la em seus sonhos. Tinha certeza, que se algum dia ela fosse embora de sua vida, ela iria também embora do sonho. Como as outras antes dela foram. E seriam substituídas por outras que ele não conhecia, até encontrar uma real que pudesse adentrar seu mundo de sonhos.
Porém tais sonhos ficavam presos na esfera do presente. Tudo o que via deles, se baseava em coisas que podiam ter acontecido por esses dias. Menos um. Um que ele sonhou várias vezes.
Sonhou com uma rede feita de barbante envelhecido. Pendurada em uma arvore grande, e ele estava de olhos fechados, sentindo a brisa. Sentiu a rede parar um pouco e um peso cair sobre ele. Abriu os olhos.  O céu estava com  o seu azul. O seu azul preferido.  Olhou para baixo e lá estava a moça. Mas não era como ele se lembrava. Parecia uma miniatura da moça. Com seus mesmos cabelos pesados caindo sobre os ombros e os olhos. Ela sorriu, e isso iluminou. O sol estava na sua frente. Ele amava tanto o sol. E a moça também amava.
A moça aparecia, realmente, logo depois. Estava com um vestido florido que ela tinha, nesse mundo de cá, o mundo da realidade. Ela vinha andando, e ele abria os olhos. Também nesse mundo de cá.
Era só isso, mas era o suficiente. Para mantê-lo no mundo dos sonhos, até que a esperança se esvaísse completamente. 

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