Contos familiares 3

Moça de família

Casou-se. Plena de que fazia coisa certa, no alto dos seus vinte e um anos. Mas no inicio dos anos oitenta era normal se casar cedo, e construir família. Essa junventude não quer saber de compromisso, dizia Moça.
Divorciou-se. Claro. Pode parecer, mas não só os cantores sertanejos e as modelos/atrizes que se divorciam. Todo mundo ou é, ou consegue ou é filho de alguém divorciado. E na verdade se tivessem inventado o divórcio logo que inventaram o casamento, hoje em dia ninguém mais casava.
Mas a moça sonhava com um amor pra vida toda, alguém pra envelhacer. Ou pelo menos achava que sonhava. Desde de os quize anos sempre foi a namorada de alguém. Quando via que o namoro ia mau das pernas, ia se consolar com outro, que mais dia menos dia virava seu novo namorado.
- Quem escolhe muito, acaba sendo escolhido. – Ela dizia as pessoas que criticavam seu pouco tempo de luto sentimental.
Uma das coisas que moça mais se orgulhava, era de sua filha. Ensinava tudo que uma boa moça de fámilia precisava saber, e cumpria essa tarefa muito bem.
“Um bom menino precisa ter berço. Ter berço, ter carro.”
“A mulher tem que estar sempre impecável. Quanto mais descuidada ela estiver, mais amantes o homem terá.”
“ Você tem que arranjar um homem que te de segurança. Que possa te amparar no futuro. “
A filha da moça fez bem. E quando a mãe entrava no terceiro casamento, a filha entrava no primeiro namoro. O terceiro marido não era uma beldade, nem tão rico como o primeiro, mas era concursado, e tinha sobrenome.
“Mãe, o Cláudio não é do seu gabinete?”
“É sim filha. É ele. “
“Mas ele não era casado? “
“Era filha, era. Agora não é mais. Quer dizer, em breve será casado. Comigo. “
A filha perguntou isso no dia que o terceiro “marido” chegou. Depois não perguntou mais. Ao contrário da mãe que perguntava tudo sobre o namorado da filha.
Mora onde? Estuta onde? O pai trabalha em que? É amigo de quem?
A filha de Moça respondia tudo muito bem. Tinha escolhido bem.
Bem mal, eu diria.
Depois de quase um ano a filha descobriu que estava sendo traída, olhou tanto pra carteira, e perdeu a direção dos olhos. Chorou e não entendeu o porquê. Disse que perdoava, mas o namorado preferiu a amante. Por quê?
“Ah, nós temos muito mais em comum. Somos no mesmo mundo, saca?”

Não demorou muito, a mãe cobrava um outro namorado. Mesmo quando a filha chorosa dizia que não estava preparada. A filha justificava, dizendo que queria um rapaz de família, afinal, ela era uma moça de família. A mãe sorriu. Ela não podia concordar mais.
Um mês virou dois, e dois meses viraram quatro. O pretendente não chegava.
“Cuidado filha, vai ficar pra titia. Quem escolhe muito, acaba sendo escolhido. “
“Sabe mãe, acho que a senhora não escolheu nada. Por isso não foi escolhida.”

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