Agora eu quero ouvir o grito
dos que só batem panela
rap de play boy  iludido
que nunca pós os pés na favela

Você tira onda de bandido
porque sobe o morro pra comprar um beck
mas se a policia te aperta
você pede pra seu pai mandar um cheque

Você nega o minimo de direitos
para sua mão de obra quase escrava
sua versão de pesadelo
deve ser arrumar a própria casa

E ta ai louco pra cortar meu ponto
Porque não pode mais botar no tronco
sou mais do tipo que corta cabeça
sem essa se por na bandeja
não vou disperdiçar minha prata
ela eu boto no pescoço 
sabe que nem tudo que reluz é ouro
Você por exemplo é só lata

Versão piorada do seu pai
ele pelo menos pegou no batente
você fica pagando de tenente
Nêm: você não saiu das fraudas e nem trocou os dentes.
Antes de achar que merece o tem
procura saber de onde veio
faz um exercicio mental: E se outro tivesse chegado primeiro?

não vem me chamar de "comunista"
isso pra mim não é ofensa
o que me ofende é ver criança catando lixo
e você repetir que ela mereceu isso. 

tabuleiro


toda criança é um mundo
cercada por seu universo particular
ela não precisa se encaixar
é inteira.
Não é peça
é tabuleiro

para crescer,
no chão elas deixam seus pedaços
como migalhas de pão.
o preço para aumentar de tamanho
é encolher e encaixotar seus sonhos
e justo quando estão grandes o sufuciente para se entender
reparam que mundos deixaram de ser

desesperadas, umas entram em negação
renegam a infância
e até usam com ofensa a palavra criança

Mas tem uns poucos, uns loucos
que apenas disfarçam
eles vão para o trabalho
eles pagam contas
eles até usam terno

Mas posso identificá-los nos detalhes
estão sempre tamburilando
vendo bicho em nuvem
dançando.
é só avistarem um campo livre
que a criança desperta
e é esse tipo de pessoa
apenas esse tipo
que me interessa.

digitos

O  numero fica martelando na minha cabeça
cada vez que ouço de forma banal
um preço
um cogido de chamada
uma planca de carro
velocidade permitida
talvez por isso
em meus devaneios
eu te chamo pelo seu nome
não só porque foi o nome que sua mãe escolheu
não porque ele mostra que eu te conheço
mas porque eu não quero confundir
com algo tão banal
e efêmero
quanto um
numero.

f r i o

Tem uma pedra de gelo
Logo abaixo da garganta, entre os pulmões
d e l e
Toda vez que o sol bate,
Ele vira um pouco água
cede um pouco mais
Desce rio, __ de
_____________sá
______________gua
Volta para o mar
Só que nesse tempo frio
A pedra fortifica.
E eu que sou f o g o, poderia derreter pouco a pouco
Pena eu não ter tempo, no presente momento
Tenho outros incêndios pra causar.

DEITADOS EM BERÇO ESPLÊNDIDO


O Brasil é uma mãe preta
Que o homem branco abandonou
O Brasil é uma mãe preta
Carregando seus filhos no braço
Engolindo o choro
Enxugando o suor
Enlarguecendo o sorriso
O homem branco que se diz encantado
Com sua força, ancestralidade, energia e cor
Quis roubar seu calor
Chegou sem pedir licença
Desbravou, adentrou, desmatou
Colonizou - o coração
A mãe preta se levanta
Sacode a poeira, samba
Não cansa, os males espanta
Nem puta nem santa
Mulher
E por ser humana
As vezes falha
Só tem dois olhos, duas mãos
A cria escapa
Foge dos olhos
Da de cara com o muro. Com o mundo
Encontra um tudo
Até o homem branco
Que ri do seu cabelo, cor e nariz
Sem enxergar na cria nada de si.
O brasil é uma mãe preta, mas o homem branco é só o homem branco.
Fechando as portas na cara do filho preto
Trocando o seu resto de humanidade
Por um punhado de propriedade.

VÉU


Tem uma porta aberta
Por trás do véu de fumaça e orgulho que você ergueu.
Tem uma música calma, parece barulho porque você esqueceu
Um pendulo batendo na mesma hora passada que alguém deveria ter dado um passo ou dois
Tem uma porta aberta, mas ela se fecha um pouco mais
Enquanto a fumaça não se esvai e deixamos o óbvio
para depois

QUEM TEM CULPA?


Meritocracia
palavra conhecida no mundo da fantasia
que ri de quem tem fome
por trás do seu iphone
tratando marca gringa
como nova dinastia
fazendo pouco caso
de quem trabalha todo dia
Merece o que tem, aceita o que lhe cabe
andou sozinha a noite, mereceu ser estuprada
vai fazer baderna, merece tomar na cara
andou na linha torta, mereceu levar bala
Eu culpo o mérito
Hipocrisia
ilusão criada nessa tal democracia
que vende liberdade
contado várias histórias
revelando pouca verdade
E se eu compro coisa cara
você diz que não me cabe
Mas já diria brother Marxs:
"A classe trabalhadora tudo produz
a ela tudo pertence"
PARE E PENSE
aquele outdoor é seu
foi você que prometeu
que se eu tivesse o carro do ano,
a mundo seria meu
Capitalismo
te dou um conselho:
para de vender sonhos para quem tem que acordar cedo
desse jeito um sujeito
pode ficar revoltado
tentando chegar ao topo
escalando pelo lado errado.
Você olha para o pobre com desdem e cinismo
dizendo aos quatro cantos
que alegria de pobre é filho
sim somos muitos e essa é a ameaça.
quantos será que precisa para derrubar seu castelo de fumaça?

Ode ao Rio

Ouvi de longe
uma seria cantar
me  chamando para o Rio
Era mês de fevereiro
Eu não sabia pronde ir.
Como pode
Uma cidade que lhe entra
pelos olhos
E se instala do peito?
É uma onda
Maior do que as sonoras
Que acalma e te devora
Lava os cabelos
O barulho da Tuba lhe enchi os ouvidos
Você ama mais não explica
Mas foi... Foi um tropeço, que tirou a linha
o eixo
Mas o caminho torto era o certo
Uma estrela de  cinco pontas sem fim nem meio
Pensar que um dia eu maldisse esse lugar
jurei que não ia por os pés.
E hoje, escrevo  e me arrepio, com os olhos inevitavelmente cheios
de lágrimas de pupurina
Lembrei-me: é lindo, mas não é meu.

Apele

me devorou com os olhos pequenos
como no dia em que os nossos se cruzaram
teve aquele sorriso de lado,
ela não disse nada
embora eu é que estivesse sem palavras
os olhos que eram tão meus quanto dela,
tinham algo de novo
algo do mundo de lá
que o cinza de cá já não dava conta
mas toquei sua mão e a pele era a mesma
a pele, a pele apela
e a alma escorria pelos dedos
enquanto ela fugia
a gente fodia
como se fosse a última
e era mesmo

porra internet (part.2)

Ontem sonhei com você
sonhei de um jeito que só o emoji de capetinha mais o de linguá  de fora podem exemplificar
queria de falar isso sem parecer loucura
talvez uma risada enorme com muitas letras desconexas depois fariam o trabalho.
e se você respondesse que gostou do sonho eu ia mandar  aquele coração vermelho
e pedir desculpas pq apareceu o coração gigante
mas talvez eu quisesse mandar o gigante
logo hoje, nada de internet. Nada de bate papo, Porra whatsapp.
mas o sonho foi MUITO BOM
desculpa o caps


 Uma ou duas palavras.Uma ou duas. Não ditas. Tão pensadas e tão escorridas por entre os dedos. Por baixo dos eixos. Em partes e inteiras. Inteiramente cheias daquele vazio que sufoca e engasga. Tira minha calma. Rasga. Eu costuro. Volto atrás, desminto o não dito com um olhar perdido. Sim. Sim. Sim. Admito. Admito que quis. Com o corpo e com os nervos e com os ossos. Imploro por um tipo de redenção. Redimindo a mim mesma todo fim de noite. Sugando o choro com um canudo fino. Eu digo que é finito. Que é pouco. Até que não é eu digo. Só não digo para você. Não precisa. Decifra-me. Decifra-me ou te devoro.

madrugada

Penetrou meu olho com
a boca
arrancando meu sono
com o dente

cerne

Queria que tivesse uma música boa. Com nuances. com batida. com uma mensagem e com swing.
A música tinha que ficar famosa, mas não muito. Só o bastante, pra chegar no youtube e ser fácil de achar.  A banda podia ser mais ou menos nova. Um pé no vinil e outro no drive. Agudos marcantes e aquele BG grave. A gente ia ouvir por acaso. Eu saberia na hora, você entenderia só um bucado. Noutro dia, sem motivo aparente tu ia viajar nas internets, e botar esse som só de pira. Percebendo, como uma verdade latente, que o cerne já rola na gente, só fica de fora essa carne. Nossa carne. Que treme.

espaços

seguro o espelho
com força
está escuro, mas todas as luzes estão acesas.
falo com a imagem refletida
como se não fosse a minha
"Pare de preencher buracos
em agendas
em poltronas e salas de cinema.
de se fazer pequena,
de fazer poema
pare de sonhar."

A imagem refletida chora. sem disfarçar, sem pudor
e a do lado de cá implora,
por um tiquinho de amor
próprio.